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segunda-feira, 22 de julho de 2013

Exportar Arquitectos [SOL 19.07.2013]


Artigo no Semanário SOL de 19 de Julho de 2013, da autoria de Fernanda Pedro, com a participação dos Arquitectos Portugueses no Mundo (APM).

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Portugal, a Arquitectura, os Arquitectos, a Emigração e o Futuro

Muito se tem falado de emigração, arquitectos, arquitectura e futuro. Contudo, pouco ou nada se discute além da emergência e a crise que veio desferir um forte golpe num dos mais frágeis sectores da economia portuguesa, desde há muito tempo expectável.Por isso, neste primeiro artigo proponho-me tentar uma reflexão inicial, pessoal e critica sobre o estado da arquitectura, uma espécie de panorâmica sobre os temas discutidos actualmente nos meandros do mundo da arquitectura portuguesa.



Vaivém Foi-se, autor: Rodrigo. Fonte: expresso.sapo.pt


1.PASSADO, PRESENTE E PORQUÊ EMIGRAR
O percurso até aqui é simples. Abrandamento (estancamento) do investimento público, quebra abrupta do financiamento ao sector privado, crescimento exponencial do número de profissionais de arquitectura e a desidratação constante dos honorários.Visto de outra forma, em 10 anos, assistimos à formação de cerca de dez mil (10000) arquitectos, ou seja, quase a duplicação do número de profissionais, acompanhada de um decréscimo da quantidade de trabalho e talvez também da sua qualidade.A emigração não é pois uma opção, torna-se inevitável para uma parte e reflexo da auto-regulação do mercado e das oportunidades de trabalho existentes.


2.O NOVO PARADIGMA, VELHOS PRÉ-CONCEITOS
Esta nova conjuntura poderá ser um indicador de mudança e deverão os arquitectos saber interpreta-la.Estaremos perante um novo paradigma para os arquitectos? Talvez.
Vejamos. O percurso clássico de um arquitecto seria após anos de colaboração e experiência, ter o seu próprio escritório e fazer os seus próprios projectos. O problema é... que projectos?
Emigração, poderá ser a solução instantânea, mas contudo não toca no cerne da questão, a circunstância que implica a emigração.Não quer isto dizer, que a solução deverá ser reclamada apenas aos arquitectos e muitos menos dos recém-formados, mas sim, de todo o conjunto plural que faz parte da cadeia económico-cultural da arquitectura.
Caberá aos arquitectos, reinventarem-se e encontrar novas dinâmicas de trabalho e de acesso ao trabalho, implicando assim superar alguns complexos estabilizados ao longo dos tempos.

Do complexo da autoria
A ideia de trabalhar sozinho, potenciada pelo desejo tentador da autoria, implica geralmente estruturas de dimensão reduzida e menor capacidade de resposta aos problemas arquitectónicos. Ultrapassada a questão de uma autoria mais ou menos singular, poderão os arquitectos criar plataformas de trabalho e criação mais alargadas, assim como, gerar sinergias, que permitirão ampliar a capacidade e competências para responder a desafios mais exigentes, noutros contextos e escalas.

Do complexo artístico/empresarial

A figura empresa é por vezes uma palavra adversa, gera uma espécie de irritação e entra em conflito com uma possível existência artística. Empresarial e comercial são coisas distintas.

Do complexo do passado

Dificilmente o futuro será como o passado. Assumida uma ruptura não fatalista com os moldes clássicos da prática profissional poderão ser repensados os campos de actuação e alargados, assim como reclamados novos domínios para a arquitectura. Surgirão naturalmente formas menos convencionais de prática profissional, mas não menos interessantes e estimulantes.

Da utopia da internacionalização e exportação

Este é outro tema muito falado e apontado como solução para dar a volta a crise. Contudo e apesar de crescentes os registos de internacionalização, são ainda em parco número.Talvez nunca tenha sido necessário e facilmente se percebe que o grosso dos escritórios não tem a dimensão necessária para cumprir as exigências contractuais de muitos concursos internacionais. Por outro lado, os novos contextos de operação implicam um esforço de compreensão e actualização, implicando por vezes a necessidade de ultrapassar os academismos e mecanismos conceptuais a que estamos habituados.


3.O FUTURO E O REGRESSO? QUE PROBLEMAS RESOLVER ATÉ LÁ?
Entretanto o que pode ser feito em Portugal? Poderá a arquitectura portuguesa algum dia oferecer uma alternativa de trabalho aos milhares de recém-formados e aos futuros formados? Possivelmente sim, ajudaria se resolvêssemos alguns dos nossos problemas clássicos.

Dos Portugueses, do sarrabisco e do Inglês ver
Há uma cultura generalizada que um projecto de arquitectura não passa de sarrabisco para não haver chatices com aqueles tipos (câmaras, etc). Outra é, o projecto é um papel para aqueles tipos verem e não o que se vai construir, ou seja, para o inglês ver.Ora, isto só acontece porque grande parte dos portugueses nunca foram sensibilizados para receber arquitectura e entender que esta pode ser um bem necessário. Acontece também por inoperância e pouca objectividade da legislação, que não favorece factores como a qualidade do espaço e qualidade urbana, e por fim, diga-se, por culpa dos arquitectos que não souberam ao longo dos tempos lutar por esse respeito, não obstante, o grande contributo prestado por profissionais de varias áreas científicas, ao abrigo provisório decreto-lei 73/73, apenas revogado em 2009.

Da arquitectura low cost

Outro problema generalizado é a assinatura e o projecto standard, feitos e adaptados ao metro e pagos pelo número de folhas A4 inseridos numa capa branca.
Esta prática não se coaduna com a ética profissional e por vezes ultrapassa a legalidade, mas o mais importante, é que não contribui para a melhor qualidade da arquitectura nem das condições de trabalho, e antes pelo contrário, sedimenta e consolida este tipo de acções e comportamentos, desvalorizando o valor do trabalho e da classe profissional.

Dos políticos visionarios e lunáticos

De todos, este é o mais preocupante. É surreal que a democracia permita, que um (e um só por vezes) político visionário vindo de outras galáxias do saber, se aventure em pleno exercício das suas funções, decidir o futuro de aldeias, cidades ou até do país, a sua estratégia urbana e territorial. Ou seja, falamos dos atropelos, avanços e recuos da gestão urbana, das construções megalómanas que são apenas o sonho de um político empenhado em mostrar obra, muita dela sem qualquer sentido de existência nem fundamentada em estudos sérios sobre a sua utilidade e consequência.Os arquitectos podem e devem reclamar um papel importante na democrática discussão do nosso território e estratégias urbanas, assim como, na gestão e incorporação dos contributos de outros pontos de vista científicos.

Do mito da recuperação
Apontada como uma das grandes soluções para o futuro, não deixa de ter pertinência a sua referência.Os centros históricos degradados são apenas consequências políticas, de longos e bons anos de construção desordenada, que engordou sucessivamente as receitas do estado (impostos e afins) e claro, todo o sector ligado a esta actividade.
Com isto, foram-se perdendo quase todas as condições e vantagens da cidade tradicional. Contudo existem algumas excepções e ainda bem.
A recuperação (entenda-se que não se trata do exercício de demolição e preservação de fachadas) poderá ser a tendência para este decénio, desde que, as mesmas entidades e interesses que retiraram a vida orgânica das cidades, criem agora as condições para que a cidade volte a ser local de eleição para habitar com qualidade. E não chegará apenas legislar, mas sim não continuar com o desinvestimento nos transportes públicos, segurança, economia, entre outros.

Das universidades de vão de escada

Mais uma situação incompreensível. Florescem cursos de arquitectura em Portugal, disponibilizando um número de vagas muito acima daquilo que o mercado de trabalho pode absorver.
É acima de tudo uma situação injusta para os alunos e mais um contributo para a banalização e desvalorização do ensino e da profissão.

Da regulação

Há muito que se fala da necessidade da existência de uma tabela de referência para cálculo de honorários de arquitectura, até pode vir a ser uma ferramenta útil e um passo importante, principalmente no momento em que o valor do trabalho desvaloriza diariamente. Contudo, espera-se da Ordem dos Arquitectos um papel preponderante na defesa da qualidade da arquitectura, competências que se deveriam estender não só da regulação do acesso à profissão mas também da regulação do tipo e conteúdos da oferta pública, um espécime em vias de extinção.

O fenómeno de emigração recente deverá ser o mote necessário para olhar-mos para dentro, hoje mais do que nunca, faz sentido discutir a arquitectura portuguesa, entre arquitectos e a sociedade. apm

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Vítor Rocha
vitorrocha@mail.com 

O portal Arquitectos Portugueses no Mundo, agradece ao autor a sua colaboração.

domingo, 3 de junho de 2012

Um Filipe Qualquer: um jovem arquitecto em tour pelo mundo


Filipe Magalhães 


o filipe é um arquitecto português nascido no porto em 1987. estudou na faculdade de arquitectura da universidade do porto (faup) durante 5 anos e na fakulteta za arhitekturo em ljulbjana durante um ano. concluiu o seu mestrado em 2011 desenvolvendo a tese 'entre o abstracto e o figurativo'. desde 2005 participa em diversos concursos, projectos e workshops e viaja pela europa. actualmente colabora com o harry gugger em basileia, na suíça. em outubro muda-se para tóquio.

umfilipequalquer.com



ENSINO


APM O tema do ensino ainda é recente para ti, sentiste algum desfasamento entre a preparação escolar e prática profissional no contexto internacional?


FM Completamente. A preparação dada pela faculdade vive dentro de parâmetros académicos, sem qualquer contexto real. Ao começar a trabalhar ‘a sério’ o grande choque é o contacto com o cliente, as limitações orçamentais, os regulamentos, etc. Estes temas são ‘um choque’ porque nunca lidamos de modo nenhum como eles. Sempre nos disseram que existiam, mas nunca tivemos a oportunidade de os compreender devidamente. Além destes problemas, existe também a noção muito clara de que os projectos são ‘reais’, e estão a ser pensados para ser construídos, o que muda também o modo como se olha para o exercício. Não se pode ‘divagar’ (sonhar?) como na faculdade...


APM Que aspectos positivos destacas da tua escola de arquitectura (FAUP) ou do ensino português em geral?


FM Talvez seja uma ideia errada, mas sempre me pareceu que o ‘ensino português de arquitectura’ está umbilicalmente ligado à faup. Os vários modelos de ensino são variantes de algo que há várias décadas se faz no Porto. Evoluções, variantes, degenerações...
Na FAUP, como em quase todas as faculdades, há características boas e más mas destacaria pelo lado positivo o respeito pelo lugar e a clara valorização da função sobre a forma.
Num contexto mais geral acho que em Portugal o estudante de arquitectura é formado para trabalhar em Portugal. Parecendo uma condição mais ou menos natural, é, na minha opinião um erro. Acredito que o ensino devia ser mais abrangente e diversificado dado que (infelizmente) o país não consegue oferecer trabalho suficiente a tantos ‘arquitectos para portugal’. Visto que a emigração é a consequência óbvia, existe um enorme gap entre o que sabemos fazer e o que nos exigem, nomeadamente nos países onde a arquitectura é mais ‘exigente’.


APM Que outros aspectos acrescentarias para a melhoria do mesmo e para uma melhor preparação para a vida profissional?


FM O primeiro passo seria a aceitação de que o ano em vigor é 2012 e não 1970. O computador é uma realidade e as ferramentas que este trouxe são fundamentais. O mundo da arquitectura deu muitas voltas nos últimos 20 anos mas Portugal (ou pelo menos a faup) parece muito ‘provinciano’ e fechado sobre si mesmo. Existe falta de professores convidados de outras escolas e nacionalidades, existe uma necessidade berrante de semestralização do ensino (que inacreditavelmente continua anual), e existem demasiadas ‘velhas glórias’ que tentam criar uma espécie alegoria da caverna... Em suma: existe pouca diversidade, pouca vontade de experimentar novos caminhos e uma acomodação a algo que se sabe que já não faz muito sentido, mas que daria demasiado trabalho a mudar. Ninguém quer sair da sua zona de conforto e prestígio (?) e os principais prejudicados são os alunos.




go.architecture v.03 (48 hours time) ideas competition - oporto, portugal / november 2011 (1st prize)
Filipe Magalhães in collaboration with Ana Luisa Soares

PRÁTICA


APM Falando de prática profissional, e mais concretamente da tua experiência em Basel, quais foram as facilidades e dificuldades principais que encontraste?


FM As referências foram um problema. Portugal é uma espécie de ilha de auto-referenciação e o que vem de fora, se não for “moralmente” aceitável ou simplesmente velho, não interessa. Existe muito conservadorismo. Aqui, em Basileia, nomeadamente nos escritórios que foram produtos da filosofia Herzog & de Meuron, os exercícios de referenciação são fundamentais e, infelizmente, nesse aspecto vim muito mal preparado. Tecnicamente, existe também uma grande limitação... Da faculdade trazemos o conhecimento de desenho e de CAD, mas ferramentas de modelação 3d, Photoshop, paginação, etc, são quase novidades. O nosso contacto com alunos de segundo e terceiro ano suíços são chocantes, dado que todos eles dominam estas ferramentas com uma grande naturalidade.
Aprende-se muito e a sensação que fica é que nos tornamos muito (mas mesmo muito) mais produtivos. Ao fim de um ano a trabalhar com alguns dos melhores do mundo, a ideia que fica é que te tornas muito mais eficiente e capaz.


APM Fala-nos da vida em Basel?


FM Não existe muito que possa dizer. A palavra ‘rotina’ ganhou todo um novo significado... Durante a semana trabalho das 9h às 20h, janto, durmo e pouco mais. Durante o fim de semana, se não trabalhar, o que não é frequente, passeio, leio um livro, vejo um filme. Ir às compras ou tratar da casa são os grandes acontecimentos. Fiz 3 pequenas viagens pela suíça, vi muita arquitectura, mas no geral tive a vida normal de um estagiário em Basileia... muito trabalho e pouca diversão.


APM O que pensas que falta em Portugal para que os jovens arquitectos possam iniciar e exercer a profissão?


FM Iniciativa, trabalho, menos arquitectos e um maior respeito da sociedade pela nossa profissão. Muita gente ainda olha para nós como uns ‘tipos que fazem umas casinhas e ainda por cima são caros!’.
Como exemplo oposto, na suíça, todas as obras (desde grandes equipamentos até pequenas moradias) são produtos de concursos e os arquitectos são vistos como profissionais de algo que é imprescindível e valorizado. A mentalidade aqui é completamente diferente e isso nota-se na quantidade de jovens arquitectos com muita (e boa) obra construída.


APM Qual o reconhecimento que tens observado internacionalmente dos arquitectos ou arquitectura portuguesa?


FM A arquitectura portuguesa está parada no tempo. Essa é a ideia geral com que fico. No entanto nomes como os de Siza Vieira, Souto de Moura ou Aires Mateus oferecem uma certa credibilidade. Em Portugal é frequente confundir-se a qualidade geral da arquitectura com a ‘qualidade’ destes nomes, mas, aqui, existe uma clara separação dos dois.


APM Ser Português é limitador?


FM Só se quiseres que seja.




polikatoikea, re-build ideas competition - oporto, portugal / december 2011 (1st prize)
Filipe Magalhães in collaboration with Ana Luisa Soares

FUTURO


APM Encaras a emigração como uma inevitabilidade para os jovens arquitectos ou como uma oportunidade de adquirir e coleccionar experiências essenciais para a formação com intenção de retorno ao nosso país?


FM A emigração é a melhor coisa que pode acontecer a um jovem arquitecto, em ambos os casos. Sair do país e ver outras escolas, métodos, nomes, ideias, processos, etc, e posteriormente voltar com outra ‘embalagem’ é a única maneira de superar o gap existente entre o presente e o que as faculdades nos ensinam.


APM Consideras a possibilidade de voltar a trabalhar em Portugal num futuro próximo?


FM Sim.
Em outubro vou para Tóquio, durante um ano, e planeio viajar pelo país e trabalhar em diversos ateliers por períodos curtos de tempo. Sou Fujimoto, Ryue Nishizawa, Toyo Ito... Depois, Nova Iorque (mas ainda tenho que pensar em que moldes). Daqui a 2/3 anos Porto: quero ter algo meu, um atelier pequeno mas dinâmico, em conjunto com um ou dois amigos.


APM Por último e em jeito de brincadeira, porquê Um Filipe Qualquer?


FM Porque o tempo em que existiam nomes que não ‘uns quaisquer’ já vai longe. Existe “um Álvaro específico” e “um Eduardo específico” mas, à parte destes, pouco mais... O futuro vai ser um lugar engraçado. apm




schools in the sky, "rooftops: why not?" ideas competition - new york, usa / jan 2012 (honorable mention)
Filipe Magalhães in collaboration with Ana Luisa Soares and André Vergueiro



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A equipa dos Arquitectos Portugueses no Mundo, agradece ao Arquitecto Filipe Magalhães a disponibilidade para a realização desta entrevista e a partilha do seu testemunho. 
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